CULTURA VIVA: COMO FOI O FIM DE SEMANA DE COMEMORAÇÕES AO CENTENÁRIO DA PONTE
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CULTURA VIVA: COMO FOI O FIM DE SEMANA DE COMEMORAÇÕES AO CENTENÁRIO DA PONTE

Giovanna Graciano 4 min de leitura 1 visualizações

Do highline sobre a Baía Norte ao soul britânico na Beira-Mar, Florianópolis usou três dias para lembrar que a Hercílio Luz pertence a todo mundo

Sábado à noite, quando os fogos abriram sobre a Baía Norte e os cinquenta mil que estavam na Beira-Mar Continental ergueram os olhos ao mesmo tempo, havia ali algo que vai além da pirotecnia. Era o tipo de coisa que cria memória de cidade — o mesmo calafrio coletivo que se sente quando um lugar inteiro respira no mesmo ritmo por alguns minutos.

O fim de semana de 16 e 17 de maio foi construído a partir da data mais simbólica do calendário catarinense do ano: os 100 anos da Ponte Hercílio Luz, inaugurada em 13 de maio de 1926. A programação não se concentrou em um único ponto nem em um único público. Ao longo dos três dias — contando a sexta-feira — cerca de 100 mil pessoas estiveram espalhadas por diferentes espaços da Capital, conectadas por uma celebração que misturou música, fé, esporte e a presença física de uma cidade que, por um fim de semana, lembrou de si mesma.

A sexta começou de forma quase intimista. O grupo feminino Entre Elas, com repertório de clássicos da música brasileira e canções que falam da cultura local, abriu as comemorações na cabeceira insular da ponte. Foi uma escolha que dizia algo sobre intenção: começar com quem é daqui, com quem canta o que a cidade conhece de cor.

No sábado, a escala mudou. O Festival de Música e Luz tomou a Beira-Mar Continental com uma programação que foi do erudito ao popular sem pedido de licença. A Orquestra Brasileira apresentou o show Origens — A Trilha da Nossa Música. O Beatles in Jazz trouxe outra camada, misturando dois patrimônios da música ocidental. E o tributo de Luiz Meira a Gal Costa, com convidadas, foi um dos momentos mais carregados de emoção da noite — aquele tipo de homenagem em que a voz de outra pessoa faz você ouvir o original de outro modo.

A atração de maior projeção foi a cantora britânica Joss Stone, que chegou à Beira-Mar com a presença de palco inconfundível — descalça, como sempre — e varreu o repertório das últimas décadas com a leveza de quem não precisa provar nada a ninguém. No público, fãs que vieram de fora de Santa Catarina. “Sou fã há muito tempo. É a cantora que mais escuto no Spotify”, contou Rose, que veio de Londrina junto com Áureo. Ele completou, com aquela clareza direta de quem está num bom lugar: “É a oportunidade de estar em uma cidade segura, num ambiente legal, com um show desses gratuito ainda.”

Mas foi outra imagem que roubou o dia. Horas antes dos fogos, o atleta florianopolitano Rafael Bridi atravessou 605 metros de highline entre a Ilha e uma das torres da Hercílio Luz, a 85 metros de altura sobre a Baía Norte. A travessia estabeleceu o recorde do maior highline urbano das Américas. Aconteceu sobre a mesma estrutura que, 100 anos antes, redefiniu o que era possível nesta cidade.

O domingo tomou outro tom. A Procissão de Nossa Senhora de Fátima saiu da ponte em direção à Beira-Mar Continental, reunindo fiéis num percurso que uniu devoção e patrimônio histórico de um modo quase inevitável — afinal, a Hercílio Luz faz parte do cotidiano de fé desta cidade tanto quanto qualquer templo. O show do padre Fábio de Melo encerrou a tarde no Continente com o tipo de comoção que só ele costuma provocar.

Na Beira-Mar Norte, outro encerramento. O Parque Náutico Walter Lange — o Parque do Remo, para os florianopolitanos — foi entregue revitalizado, com mais de 30 mil metros quadrados reformulados, novo píer público, arquibancada, iluminação em LED e paisagismo renovado. O Dazaranha tocou para marcar a inauguração. Três décadas de música manezinha soando num espaço público recém-renovado, à beira d’água, diante de uma tarde de sol de outono em Florianópolis.

Cem mil pessoas num fim de semana. Algumas vieram de longe. Muitas saíram de casa pela primeira vez em semanas para ocupar um espaço público. A Hercílio Luz chega ao seu centenário como muito mais do que uma obra de engenharia — ela representa a memória de Santa Catarina, a força de Florianópolis e o orgulho de um povo que vê naquele monumento uma parte da própria história. 

Conforme Lei nº 10.199, a Prefeitura informa que a produção do conteúdo não teve custo e sua veiculação custou R$ 5.000,00.