Rafael Bridi tem recordes sobre vulcões ativos e cachoeiras na Venezuela. O que ele queria mesmo era voltar para casa
Havia um ciclone se formando ao largo. O vento chegava em rajadas sobre a Baía Sul. O plano original — cruzar os 1.200 metros entre a Torre Sul da Hercílio Luz e a Ponte Colombo Salles, o que quebraria o recorde mundial da modalidade — precisou ser abandonado. Rafael Bridi olhou para o céu, consultou a equipe, e fez o que qualquer manezinho experiente faria diante de um problema: adaptou.
Às dezesseis horas do sábado, dia 16 de maio, com milhares de pessoas espalhadas pelas margens da Baía Sul, ele começou a caminhar. Uma fita de 2,5 centímetros de largura. 85 metros abaixo, água. A travessia foi feita sem barra de equilíbrio, apenas com o corpo, equipamentos de proteção e uma mochila de segurança, sobre um sistema composto por uma fita principal e uma fita reserva logo abaixo, em material híbrido de poliéster e nylon. Vinte e oito minutos depois, Rafael Bridi havia cruzado 605 metros. O maior highline urbano das Américas estava refeito — por ele mesmo, sobre a mesma ponte onde, em 2020, havia feito sua primeira travessia histórica durante a reinauguração da estrutura.
Bridi acumula três recordes mundiais registrados no Guinness Book: o maior highline dentro de um vulcão ativo do mundo, no Monte Yasur, em Vanuatu; o highline mais alto do mundo em relação ao solo, realizado entre dois balões a 1.901 metros do chão, em Praia Grande, na Serra Catarinense; e a travessia a 1.008 metros de altura sobre o Salto Angel, a maior cachoeira do mundo, na Venezuela. Para escalar esse currículo, ele cruzou oceanos. E então voltou para o céu de Florianópolis para o recorde que, pelo seu próprio relato, carrega um peso diferente. “Quando eu olhava para frente, via o desafio. Quando olhava ao redor, via a minha história.”
Há uma geometria simbólica no que aconteceu naquele sábado que vai além do esporte. A Ponte Hercílio Luz foi construída porque Florianópolis precisava de conexão — uma ligação física entre o que estava separado pelo mar. Cem anos depois, um manezinho atravessou o vazio entre a Ilha e a torre sul da mesma ponte sobre uma fita do tamanho de um polegar. As duas histórias se tocaram no ar.
O plano mais ambicioso ficou para outra hora. O vento decidiu diferente no sábado. Mas o vento muda, e Bridi tem historial de voltar. Por enquanto, o que o centenário da ponte ganhou foi uma imagem nova: a silhueta de um atleta caminhando devagar, em silêncio, sobre o aço das torres que sustentam o cartão-postal mais reproduzido de Santa Catarina. “Mesmo sendo desafiador realizar a travessia diante de milhares de pessoas, nunca senti uma energia tão boa.”
Conforme Lei nº 10.199, a Prefeitura informa que a produção do conteúdo não teve custo e sua veiculação custou R$ 5.000,00.