Pesquisa inédita de catarinenses revela que mulheres protagonizaram 8,4% dos shows de música instrumental no estado, número que cai para zero quando o recorte é de mulheres negras.
O dado é seco e não deixa margem para interpretação generosa: em festivais catarinenses de música instrumental realizados entre 2024 e 2025, mulheres protagonizaram 8,4% dos shows analisados. O Brasil inteiro tem, nesse mesmo período, 10%. Santa Catarina fica abaixo da média nacional. Quando o recorte considera mulheres negras instrumentistas, os números revelam algo mais pesado: menos de 1% das artistas identificadas nos palcos, e nenhum show protagonizado.
Esses números saem da pesquisa “O Palco que Nos Deve: Mulheres e a conquista do espaço na Música Instrumental”, desenvolvida pelas pesquisadoras catarinenses Valentina Bravo e Caroline Cantelli com apoio de outras quatro especialistas. O levantamento, realizado entre junho de 2025 e maio de 2026, analisou a programação de 28 festivais nacionais dedicados à música instrumental, somando 522 shows e 2.369 artistas identificados. Cruzou dados quantitativos com entrevistas em profundidade feitas com 12 instrumentistas, compositoras e arranjadoras de diferentes gerações e territórios.
O que a pesquisa identifica como tokenismo (a inclusão simbólica que não altera a estrutura) aparece com frequência perturbadora: na maioria dos festivais analisados, havia apenas um show com protagonismo feminino em toda a programação. Um. Entre todos os dias, todos os palcos, todos os slots.
“A pesquisa deixa evidente que existe uma produção extremamente potente feita por mulheres, inclusive em Santa Catarina. O problema não é falta de talento, mas as barreiras históricas de acesso aos espaços de circulação, reconhecimento e liderança dentro da música instrumental”, afirma Valentina Bravo, idealizadora do projeto.
Há algo de específico no gênero que torna esse apagamento mais visível. A música instrumental, com suas tradições de choro, jazz, música de câmara e fusão, é um campo em que o domínio técnico é ostentado publicamente, em que a figura do solista ocupa o centro e a reputação se constrói no circuito de festivais. Ficar fora desse circuito é, portanto, um apagamento técnico, não apenas simbólico. A ausência não é neutra: ela fala.
Entre as artistas catarinenses entrevistadas pelo projeto estão Natália Livramento, Mari Leonel e Denise de Castro, três musicistas que ajudam a construir a identidade da música instrumental produzida no estado. A iniciativa foi contemplada pelo Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura, edição 2025, da Fundação Catarinense de Cultura. Uma plataforma digital com entrevistas, dados e conteúdo audiovisual já está acessível pelo perfil @PalcoqueNosDeve.
Pesquisa não muda line-up. Quem muda é quem programa. Mas o dado precisa existir antes de qualquer mudança, e agora ele existe: com metodologia, com nome, com rostos.