DE TODOS, PARA TODOS: O QUE O CENTENÁRIO DA PONTE ENSINA SOBRE CULTURA PÚBLICA 
CULTURA

DE TODOS, PARA TODOS: O QUE O CENTENÁRIO DA PONTE ENSINA SOBRE CULTURA PÚBLICA 

Giovanna Graciano 3 min de leitura 1 visualizações

Do soul britânico ao reggae manezinho, as comemorações dos 100 anos da Hercílio Luz mostraram o que acontece quando cultura pública é levada a sério.

Houve quem reclamasse da Joss Stone. Houve quem achasse o Dazaranha de menos. Houve quem quisesse só a procissão, quem fosse apenas pelo highline, quem aparecesse para o remo no domingo de manhã. Esse desacordo generalizado sobre o que deveria ou não ter sido feito é, curiosamente, o melhor elogio que a programação do centenário da Ponte Hercílio Luz poderia receber: significa que havia algo para cada um.

Ao longo de um fim de semana — e de um mês inteiro de maio — a Prefeitura de Florianópolis construiu uma agenda que recusou escolher um único público. A sexta começou com o grupo feminino Entre Elas cantando clássicos brasileiros na cabeceira insular da ponte, para moradores que passavam e ficavam. No sábado, a Orquestra Brasileira abriu a noite na Beira-Mar Continental antes da Joss Stone. No domingo, o Dazaranha — Patrimônio Cultural de Florianópolis desde 2006, com mais de três décadas de letras cantando a Ilha com sotaque e violino — tocou na inauguração do Parque do Remo. No mesmo dia, a Procissão de Nossa Senhora de Fátima percorreu o trajeto da ponte até a Beira-Mar, reunindo fiéis de diferentes gerações.

Gratuito. Tudo gratuito.

Esse detalhe não é pequeno. Democratizar cultura não é apenas diversificar o repertório — é garantir que o ingresso não seja a barreira. Uma banda como o Dazaranha, símbolo vivo da cultura manezinha, cujas canções são retratos sonoros do cotidiano, das paisagens e dos afetos que moldam o espírito da Ilha, tocando num parque público recém-revitalizado, à beira d’água, para quem quisesse aparecer: isso é política cultural concreta. Assim como trazer uma atração de alcance internacional para uma orla aberta, sem grade, sem camarote, sem divisão por quanto cada um pagou.

O que as programações de ocupação do espaço público fazem que nenhuma plataforma de streaming consegue é criar o encontro. As cem mil pessoas que circularam pelos eventos do fim de semana não estavam apenas consumindo cultura — estavam dividindo o mesmo ar, o mesmo céu, a mesma memória coletiva. A fã que veio de Londrina para ver Joss Stone. A família que acompanhou a procissão. Os remadores que disputaram a etapa do campeonato estadual. O público que ficou para o Daza depois da inauguração do parque.

Não existe fórmula simples para isso. Uma programação que serve ao devoto e ao fã de soul britânico, ao atleta e ao músico manezinho, ao fotógrafo e ao remador, corre o risco de não agradar plenamente a nenhum deles. Foi exatamente esse risco que as comemorações do centenário aceitaram correr. E que, ao fim, valeu.

Conforme Lei nº 10.199, a Prefeitura informa que a produção do conteúdo não teve custo e sua veiculação custou R$ 5.000,00.