De símbolo de uma cidade a ícone de um estado inteiro: como 821 metros de aço suspensos sobre a Baía Norte se tornaram o rosto de Santa Catarina
No início, eram quatro navios cruzando o Atlântico com aço dos Estados Unidos. As peças foram fabricadas pelas empresas United States Steel Products Company e American Bridge Company e o projeto foi coordenado pelos engenheiros Steinman e Robinson. Quase dez mil quilômetros de travessia oceânica para chegar ao canteiro de obras de uma cidade que, na época, tinha cerca de 40 mil habitantes e dependia inteiramente de balsas para qualquer travessia entre a ilha e o continente.
A obra começou na década de 1920, durante o governo de Hercílio Luz, então governador de Santa Catarina. Na época, o acesso à ilha dependia principalmente de embarcações, o que dificultava o transporte de pessoas, mercadorias e serviços. A pressão política para transferir a capital catarinense para o interior era real — afinal, o isolamento geográfico falava por si. Hercílio Luz apostou na solução contrária: não mudar a capital, mas conectá-la. Ele não viveria para ver a inauguração. A ponte que deveria chamar-se Independência recebeu seu nome em homenagem ao governador que a sonhou, e foi entregue em 13 de maio de 1926.
O que Steinman e Robinson entregaram era uma raridade técnica: 821 metros de extensão total — sendo 339,5 metros de vão central —, 28 vãos sustentados por duas torres principais de 74 metros e 12 torres secundárias, com suspensão formada por correntes de barras de olhal articuladas por pinos de aço. Essa solução, diferente dos cabos trançados que dominam a engenharia de pontes modernas, tornou a Hercílio Luz singular no mundo. Ela é atualmente a única no mundo com partes das barras de olhal compondo a corda superior da treliça de rigidez.
A singularidade técnica que a tornava única virou também o maior desafio de quem tentou salvá-la décadas depois. As barras de olhal são uma tecnologia do início do século XX que não é mais fabricada em escala industrial no mundo. A raridade dessas peças tornou o restauro um desafio global, pois cada uma precisou ser inspecionada e, em muitos casos, replicada com aços de alta performance. O desgaste da estrutura levou à proibição do tráfego de veículos pesados nos anos 1980 e, posteriormente, ao fechamento total em 1991. Durante décadas, o futuro do monumento gerou debates sobre preservação, custo e risco estrutural. A transferência de carga durante a restauração — transferir o peso da ponte velha para uma estrutura provisória instalada por baixo, e depois de volta para as novas barras — foi uma operação matemática de risco extremo. A reabertura, em dezembro de 2019, foi tratada como acontecimento histórico.
Mas o que transforma a Ponte Hercílio Luz de obra de engenharia em símbolo de estado é algo que nenhum cálculo estrutural mede. Tombada pelo IPHAN em 1998 como patrimônio cultural do Brasil, a estrutura atravessou diferentes fases ao longo do século: foi símbolo de modernidade, enfrentou décadas de deterioração, passou por grandes restaurações e hoje segue como um marco da engenharia e da memória catarinense. Ela aparece em camisetas, azulejos, quadros, logotipos de empresas, tatuagens.
Levantamento realizado pelo Instituto MAPA, divulgado em setembro de 2025, confirma o que já era óbvio para qualquer catarinense: a Hercílio Luz permanece o maior símbolo turístico de Santa Catarina. Não Bombinhas. Não o litoral norte. A velha senhora, de aço, em Florianópolis.
Há nisso uma ironia que vale notar. A cidade que a ponte “salvou” de perder o status de capital cresceu tanto que hoje tem três outras travessias cruzando o canal entre a Ilha e o continente — e a Hercílio Luz, a mais antiga e a que ficou mais tempo fechada, ainda carrega toda a memória. É como se o estado inteiro tivesse depositado ali sua identidade. Não na arquitetura nova, não nas avenidas largas, mas nas torres de 74 metros de uma estrutura projetada em Nova Iorque, montada com aço americano, por mãos catarinenses, para resolver o mais catarinense dos problemas.
Cem anos depois, a ponte está iluminada com projeto cênico inigualável. De noite, sobre a água da Baía Norte, ela brilha como um cartão-postal que não precisa de legenda. Todo catarinense sabe o que é. E qualquer estrangeiro que chegar pela primeira vez a Florianópolis vai entender, ao vê-la, que chegou a um lugar com história.
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