A diva britânica do soul na festa do centenário da Hercílio Luz não foi uma escolha aleatória — foi o retrato de uma cidade que já conversa com o mundo de igual para igual
Ela chegou descalça. Joss Stone nunca usa sapatos no palco — é um hábito que virou marca, uma espécie de declaração de que a música exige contato direto com o chão. Na Beira-Mar Continental de Florianópolis, sábado à noite, essa escolha estética encontrou uma cidade que, à sua maneira, também tem feito isso: aproximar-se do mundo com os pés na areia.
A presença de uma cantora britânica vencedora de dois BRIT Awards e um Grammy — mais de 15 milhões de álbuns vendidos e mais de 1 bilhão de streams acumulados — na celebração do centenário de uma ponte catarinense pode parecer, à primeira vista, um contraste. Mas Florianópolis deixou de ser a capital isolada que dependia de balsas para se conectar ao continente faz tempo. Hoje, a cidade é ponto de chegada de gente do mundo inteiro.
Os números sustentam o que qualquer morador da Ilha já percebe no cotidiano. Segundo ranking da plataforma Nomad List, referência global em trabalho remoto, Florianópolis foi o segundo destino que mais cresceu no mundo em atração de nômades digitais entre 2018 e 2023 — crescimento de 152%, atrás apenas de Tirana, na Albânia. Levantamento da consultoria DashCity aponta que, em 2025, a cidade abriga 5.666 nômades digitais, uma alta de 224% em seis anos. A organização Remote Year foi além: elegeu Florianópolis a melhor cidade do mundo para trabalho remoto, graças à combinação de infraestrutura tecnológica, belezas naturais e vida cultural. As projeções falam em triplicar esse contingente até 2030.
Esse movimento vai além de um movimento econômico. Ele é cultural. Quem passa um mês numa cidade não está só trabalhando — está frequentando restaurantes, assistindo a shows, usando espaços públicos, deixando referência e absorvendo. A Florianópolis que recebe mais de cinco mil nômades digitais por ano já habituou seus moradores ao convívio com sotaques diferentes, hábitos distintos, perspectivas outras. O público que estava na Beira-Mar Continental no sábado — incluindo a fã que veio do Paraná só para ver Joss Stone de perto — é um retrato dessa circulação.
Nascida em Dover, na Inglaterra, Joss Stone se tornou a mais jovem cantora britânica a liderar as paradas do Reino Unido com seu segundo álbum, Mind Body & Soul, em 2004, e entrou para o Guinness World Records como a vencedora solo mais jovem do BRIT Awards, aos 17 anos. Seu soul mistura as influências de Aretha Franklin e Janis Joplin com a sensibilidade de uma artista que, ao longo de mais de duas décadas, nunca parou de se reinventar — do R&B ao reggae, do pop à world music. Na Beira-Mar Continental, ela apresentou os sucessos de uma carreira construída numa relação visceral com o público, com aquela interação que bons shows ao vivo têm e que a tela do celular nunca vai conseguir reproduzir.
Há uma conversa implícita, portanto, entre a escolha dessa atração e o que Florianópolis tem se tornado. Os estrangeiros que vêm por um mês e muitas vezes acabam ficando trazem novas referências, ajudam a oxigenar o ambiente de inovação e ampliam a visão de mundo das empresas e pessoas locais. Uma cidade que se internacionaliza — nas startups, nos espaços de coworking, nas comunidades de founders em Jurerê, nos letreiros bilíngues que foram aparecendo pela orla — naturalmente passa a receber e a produzir eventos com outra escala de alcance. O show gratuito de Joss Stone na festa da Hercílio Luz não é incongruente com a identidade local. É uma das expressões mais honestas do que essa cidade se tornou.
A Ilha da Magia sempre foi um nome carregado de ambiguidade — misticismo açoriano, natureza exuberante, aquele jeito manezinho de levar a vida sem pressa. Mas a magia contemporânea de Florianópolis inclui também isso: ser um lugar onde uma britânica descalça pode cantar para cinquenta mil pessoas à beira da Baía Norte, diante de uma ponte centenária, e a cena fazer sentido perfeito.
Conforme Lei nº 10.199, a Prefeitura informa que a produção do conteúdo não teve custo e sua veiculação custou R$ 5.000,00.